E pronto: lá se vai o melancómico, a personagem, no formato televisivo (terá um breve ressureição em DVD com algumas novidades e poderá sugir noutros formatos).
O que é que fica disto tudo?, pergunta a Dona Bina.
Muita coisa.
A forma como se foi compondo e ganhando forma ao longo de cerca de 50 episódios apesar de tudo bastante diversos, nos quais houve mais do que espaço para a experimentação. Do registo mais minimal centrado na solidão da personagem (sempre entrecortado por instantes de delírio e dança) passou-se para pequenas ficções mais acompanhadas, em contrapontos decisivos para se ir percebendo a diversidade dos bairros e dos seus habitantes.
Do trabalho em melancómica equipa falam por si as fotos postadas aqui abaixo. O melancómico é o olhar, o empenho do realizador Tiago Carvalho (grandessíssimo "melancómico", como tantas vezes brincámos) e as ideias que foram aparecendo nas nossas conversas e nos episódios que fomos trazendo para as gravações. E o dedo e a capacidade realizadora da produtora Inês Eusébio. O talento do Tiago Câmara, editor e franco sentido crítico, e de todos aqueles que foram colaborando com o programa: entre eles, o editor de som Miguel Costa (fundamental sobretudo nalguns episódios mais épicos e na boa conversa de estúdio sobre o sentido da vida e os planos de cada um), o editor de imagem Miguel Miranda, e agora, mais recentemente, o homem do som Pedro Torres. Mas também, por exemplo, o Gonçalo Pardal na câmara e o David Neto, que tem estado comigo na escolha dos episódios para o DVD. E agora, cada vez mais, no trabalho de registo do que merece ficar, os doces e implacáveis editores Miguel Neto e Maria João Freitas.
Decisiva no programa também foi a interacção com amigos e personagens. Há entrevistas e bate-papos melancómicos que me ficam. Mas também ficam as participações mais do que generosas nos episódios de pessoas como o Dinarte Branco, o Pedro Mexia, o Pedro Marques Lopes, o David Almeida, o João Bonifácio, o Miguel Nogueira, o Rui Santos e o Tiago Rodrigues. Um imaginário não se realiza se não receber a visita de cúmplices na arte e na vida.
Também foram bastante importantes os feedbacks. A começar pelo feedback caseiro, o primeiro e mais atencioso (e revelante) de todos. E os que, fora, aqui e ali revelavam atenções raras. Às vezes eram conversas de corredor, outras cliques e comentários virtuais. Apesar de continuar a achar que o melancómico é quase um anti-programa de internet, por ser o contrário dos vídeos rápidos e "virais", a net - em particular o Facebook - foi importante para perceber quem é que melhor entrava no imaginário (por uma sensibilidade próxima, por se reconhecer no ambiente de bairro, por também também oscilar entre os pensamentos sobre a existência e a ida ao supermercado) e quem o recusava (por feitio, por falta de pachorra, por tudo aquilo a que as pessoas, por serem pessoas, têm direito).
Com o fim do melancómico tv também fecho esta casa - e o canal de vídeos do Sapo. Acho que é bom deixar este bairro melancómico nesta sua versão internética apenas acompanhado pelas suas personagens, que já têm a sua vida própria e não precisam da gente para nada.
Agradeço muitíssimo a quem em silêncio tem visitado estas ruas.
E é isto.
Até já, co-melancómicos. Vemo-nos noutras esquinas.
(no bairro zoológico)
(melancómico bigode do realizador Tiago Carvalho)
(foto de turista de bairro com a produtora Inês Eusébio)
If I could I would change the world
But you know my visions they're absurd
And all my great plans get blurred
By the softest touch, the gentlest word
[Chorus]
I've said it before and I'll say it again
I will not believe until it is mine
Until it's mine, all mine, yeah mine
If I knew all about this world
Do you think I'd stay here that's absurd
I'd be the brightest star you heard
We'd be the softest lace on earth
[Chorus]
(Estou com o primeiro comentário do vídeo no youtube:
"It shows you how stupid the world is that this band never became as big as Smiths or The Cure").
Os pessimistas têm sempre razão. Mas eu nem sempre gosto de ter razão.
É fácil cair na tentação de achar que o mundo está apodrecido como nunca esteve. Mas não está, não. O mundo está como sempre esteve: frágil, vulnerável, vocacionado para o erro. Agora está é impedido de fazer as coisas às escondidas.
Paisagens, sim, mas também músicas, quadros, pessoas, vozes, sombras.
Tanta beleza desperdiçada.
Tanta beleza desconhecida.
Também aí reside uma das misérias do mundo.