
Fiquei preocupado com Paddy McAloon depois de ter lido a sua entrevista à "Mojo" - sim, exactamente como se fica preocupado com a ausência melancólica de um amigo. Pareceu-me triste (mais do que tristonho), isolado, super produtivo (na composição, pois) mas incapaz de partilhar com os outros aquilo que vai desenhando e redesenhando no seu estúdio caseiro. Tenho por isso ouvido no carro "Andromeda Heights", álbum de 97, assumido hino às utopias da existência amorosa, criticado na altura do lançamento, segundo o próprio, por não trazer o cinismo à lapela - nem em qualquer outro sítio. (Sobre o assunto, comenta numa notinha que nem todos temos de ser Lou Reed e nós percebemos o que é que ele quer dizer com isso). Paddy, antigo "king of rock'n'roll", teve problemas graves de saúde e agora, claramente, pratica na primeira pessoa o clássico discurso do deprimido, com um aspecto de contador de histórias reformado (apesar do brilhozinho nos olhos, uns olhos doentes e recém-operados, se manter). Não te queremos assim, pá. Ajudem-me nisso. Como? Ouvindo os discos dele (e deles) como quem o chama através de uma oração. Justamente agora que está aí material antigo empacotado e distribuído nos sítios do costume.
Por que é que, apesar das condições precárias e do desequilíbrio mais ou menos permanente, nos dizemos felizes? Cá por mim é por isto: porque inventámos, nós portugueses, o conceito de tristeza feliz. Somos felizes na nossa tristeza. Mesmo o fado não é tragédia pura - a emoção que provoca eleva os espíritos em vez de os deitar para baixo. Quando aparece uma nova grande fadista, como parece ser o caso desta Carminho, é como se viesse à Terra um profeta - não da desgraça mas da bem-aventurança, da felicidade. Seguimos a voz como quem segue a voz de uma sereia com voz chorosa e ao meso tempo transcendental, arrisquemos o termo, divina. Temos com a vida uma relação menos complicada do que parece. Fazemos fitas, choramos baba e ranho, mas somos felizes. Não contentinhos como outros povos aparentemente mais a puxar para cima, como se costuma dizer. O nosso fado não é uma tragédia grega. É portuguesa. Prescinde da superfície dos smileys porque vem da vida, da alma. No fundo, no fundo, o nosso fado é uma música feliz.
(Texto lido hoje de manhã no 'Minuto a Minuto')


(Com um abraço agradecido ao Irmão)
O meu mai novo tem miaúfa da Cruella. (E os candidatos às Europeias ainda não se pronunciaram sobre isso).